sábado, 18 de setembro de 2010

Vai briosa a Ana pelo caminho até à fonte da aldeia.
Levemente toca com seus pés no caminho de terra batida não quer levantar poeira nem acordar os bichos pachorrentos ou sequer matar uma formiga que seja.
Encosta os seus cabelos ao vento para se sentir mais airosa e princesa em castelos de sonho.
Suas mãos delicadas não calejadas pois ao trabalho duro são poupadas levam meio a medo um pequeno jarro de barro onde dormitará a fresca água da fonte da aldeia.
A saia jardim em seu corpo vai rodando e teimosamente se levanta um recanto como promessa de muito mais a quem para ali olhar.
Corpo esbelto o da briosa Ana que quando passa faz prender o ver de quem caminha mas com algum desdém se apresenta como torre do deserto prémio para não sei quem mas nunca para aqueles da sua aldeia.
Gosta de ler o seu livro de romances e dedelar linhas e linhas em rendas e paninhos que vão povoando uma arca dita do enxoval para ir bem dotada quando entregue ao príncipe dos seus sonhos.
Pelo caminho de terra batida vaia Ana deitando olhares à paisagem e apenas vês montes aqui com árvores além já só barrocos e suspira inconformada com tão parca visão.
A caminho da fonte da aldeia vai a briosa Ana sonhando com outros mundos terras e gentes, vestires cores e muito mais. Está cansada do isolamento da aldeia da pachorrice dos animais da velhice das gentes da simplicidade dos outros da monotonia dos dias e dos murmúrios do vento.
Vai briosa a jovem Ana a caminho da fonte da aldeia e descendo pela ladeira abeira-se do berço da água que lhe sacia os lábios e revê-se no cristalino espelho. É bela a jovem Ana de rosto cálido boca carnuda e olhos verdes grandes bordejados por longas e negras pestanas. Ajeita o seu cabelo preso ao lado por uma fita cor de azul e daria ela para uma estrela de cinema e em tão elevada posição deita a cabeça sobre o ombro para se tirar a fotografia premiada.
Que raiva pensa a jovem Ana ao turvar-se o espelho pois apaixonado ou apenas assustado saltou um sapo lá para fora onde o sol bate mais forte e as ervas banhadas nos pés pela água que sobra servem de habitat aos animaizinhos verdes.
Perdeu a paciência a briosa Ana que enche o seu jarro de água e o colocando à cintura sobe pelo caminho acima para em direcção à povoação se refugiar no seu lar.
Lá em casa na sua cama fofinha relê as revistas que vieram da cidade pelo tio Augusto que já faz para muitos anos que daqui partiu para regressar quinze dias por ano dizendo a boca cheia que não fica mais tempo pois sente falta do bulício da sua cidade.
Vê as imagens da praia onde se passeiam em biquini as belas mulheres, as montras das lojas onde se perdem imaginações, prédios tão doces lares, avenidas de passeio onde pessoas interessantes se cruzam, monumentos para conhecer de mão dada, ruas para percorrer sempre encontrando coisa nova.
Vai sonhando a briosa Ana e já disse a seus pais que um dia gostaria de conhecer a cidade e iria com seu tio que já a convidou dizendo que moça tão bela tão bem ficaria numa cidade como aquela.
Vai então realizar em dia o seu sonho e numa pequena mala leva alguma roupa só a mais moderna e esquece tudo o resto sem se despedir de quem seja parte entre lágrimas e sorrisos tímidos da sua família e apanha o comboio com o seu tio com destino à cidade.
Vai confiante a Ana a acredita no futuro brilhante e enquanto o pouca-terra pouca-gente vai remando ao longo dos carris a jovem Ana vai fazendo planos e conversas e o vidro da paisagem transparece o seu sorriso já vitorioso.
Chega a jovem Ana ao destino e com o mesmo ar brioso caminha por entre o tapete asfaltado não chamando a atenção de quem passa mas sendo mais uma entre tantos e sorrindo permanece ao lado do seu tio com quem se sente confiante.
Seguiram-se dias de pesquisa e muito se viu e andava ela numa roda-viva de lá para cá e gente foi conhecendo e nos cafés foi entrando para se sentar e esperar e os jovens foram tomando lugar a seu lado com conversas insinuantes.
Sentia-se poderosa já com roupa bem na moda e logo os olhares se voltavam para aquele corpo esbelto e com sorriso cativante procurava despachar a arraia-miúda e dando trela àqueles de promessas se deleitava em entregas como campo de trigo que se semeia para depois colher.
Sentia a falsa paixão dos homens que sussurrando ao ouvido a elevavam a rainha e lhe ofereciam palácios de cristal e a eles se entregava primeiro com temor depois com esperança que era aquele e mais tarde com o desespero que já tudo havia perdido mas que ainda havia de conseguir.
A briosa Ana anda agora pela cidade à procura das imagens das revistas e perdida pelo desencanto sente saudade da sua aldeia mas é tarde para voltar pois o seu rosto desbotou e já perdeu o ar airoso que tinha quando pisava o chão de terra batida.
A briosa Ana percorre agora as ruas da cidade à procura do seu sonho e em cada esquina jura que o encontrou mas apenas mais uma vez se enganou e o seu corpo esbelto foi aproveitado para mais uma hora de prazer e as promessas ditas rasgadas foram pelas mãos que o seu corpo percorreram dizendo que sim que sim.
Levemente toca a briosa Ana com seus pés no passeio de calçada pois não quer acordar o mendigo ou o chulo da rua nem ser vista ou porque se quer ainda mostrar elegante no seu caminhar pela cidade.
Os seus cabelos já não voam nas mãos do vento mas se acasalam com paredes sujas e imundas onde a briosa Ana descansa seu pensar na dor do desencanto.
As mãos da menos jovem Ana entrecruzam-se não sabe se em preces ou em perdão mas se aquecem uma á outra e amanhã segurarão o corpinho de uma criança gerada incógnita que fez brotar dos olhos verdes da mulher Ana a mais cristalina fonte da aldeia.
Dorme agora em seus braços arreigada ao peito da briosa Ana uma linda menina que não crescerá na cidade para não se perder mas sim na aldeia de gente idosa e simples porque ali o vento passa e a paisagem permanece as pessoas olham mas não imundam as almas crescem e não se perdem.
Sente vergonha a briosa Ana ao pisar o caminho de terra batida mas relembrando o passado vai construído o futuro e o tempo tudo esbate e agora pelo caminho da fonte vai a briosa Ana de mão na mão da sua filha.
São dois rostos que no presente sorriem ao espelho de água que já não se leva para casa pois já pinga na torneira mas é agora local de conversa partilha de saberes e avisos de quem já sofreu com a vida por saber que nem todos os sonhos se realizam.
Vão briosas mãe e filha pelo caminho de terra batida e o vento esquentado por tanta beleza vai espreitando levantando as saias e trazendo de volta a promessa daquele que sempre ali estivera apaixonado olhando para a briosa Ana em silêncio com receio de lhe perguntar queres comigo namorar?
Lentamente a briosa Ana conhece e se dá a conhecer não tem pressa e os sonhos já morreram pois então há que acreditar que na sua terra aldeia o amor pode encontrar na gente humilde e simples de um homem que nada promete mas apenas o seu amor tem para dar.
Vai briosa a Ana pelo caminho da aldeia até à sua casa de cortinas brancas onde sorrindo encontra no jardim os seus dois rebentos e um rosto de homem que a trata como mulher e se lhe oferece como porto seguro numa paisagem que permanece e num vento que sussurra pouca-terra pouca-gente.

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