sábado, 18 de setembro de 2010

A rosa e o girassol

Costuma-se dizer que o silêncio é de ouro mas a minha filha estraga qualquer ditado popular. Assim sendo, tenho eu de todo os dias inventar uma história, que de preferência sejam comprida, para depois da conversa sobre a escola, preencher o vazio de uma viagem.
Num desses dias perdidos entre tantos outros inventei então a história da rosa e da girassol que reza assim:
Há muitos muitos séculos, antes do homem existir na terra, era o mundo governado por deuses, existia apenas a Natureza. Num lindo vale de tons verdes e arco-íris, rodeado de montanhas que vestiam carapuço de lã branca, com um lago bem no meio e um rio que ria um pouco mais além, vamos encontrar duas lindas flores: a rosa e a girassol.
A girassol, sem nada para mais fazer, e ao ver o seu rosto reflectido nas águas límpidas e calmas do lago, virou-se para a rosa e disse:
- eu sou uma linda flor. Tenho muitas pétalas, são longas e fortes. São da cor do sol que tudo ilumina e tudo abençoa. Fazem lembrar o ouro que reluz e é fonte de riqueza. Do meu olho brotam sementes castanhas que as abelhas adoram beijar para delas retirar o néctar e fazer o melhor mel. Essas sementes ficarão duras e servirão de alimento aos animais deste vale verdejante. Ah, como sou bonita. Ao contrário, acho-te a ti muito deslavada. A única coisa que tens de belo é o teu perfume que até acho um pouco enjoativo. Mal te abres num tufo de pétalas logo começas a esmorecer. Não tens piada alguma.
E a girassol, num gesto de desprezo empinava o seu rosto para o sol e ali ficava a banhar-se enquanto as rosa, sossegada, se espreguiçava á beira do lago vendo os peixes a piscar-lhe o olho ou a ouvir o chapinhar dos patinhos que, doidinhos pela natação, abanavam os rabinhos.
Todos os dias a girassol vinha com a mesma lengalenga até que a rosa lhe respondeu educadamente:
- cada um é como é. Ainda bem que tu és tão bela pois se tal não fosse o nosso jardim seria mais triste e as tuas palavras enchem de melodia o silêncio deste paraíso. E o meu perfume existe para criar à tua volta uma aura de bem-estar na qual tu te deleitas e encantas.
Ao ouvir estas palavras a girassol ficou ainda mais convencida e mais se pavoneava ao sol.
Um dia decidiu implicar com os picos que saltavam do corpo da rosa e esta defendeu-se airosamente alegando que era para evitar que os bichos por ela subissem acima. A girassol ria a bom rir.
O tempo foi passando e um dia, o deus criador da Natureza, desceu à terra para ver a sua obra e como tudo andava.
Pousou nas montanhas e elas reponderam:
- tudo vai bem ó deus. Somos imensas e temidas. Temos neve nos nossos picos e dominamos a paisagem com olho de falcão.
O deus ficou contente. Banhou-se depois nas águas do mar e ouviu:
- tudo vai bem ó deus. Sou imenso e salgado. No meu corpo navegam imensos peixes que se alimentam uns aos outros. Tenho grinaldas de flores a ornarem o meu colo e adoro a minha amante com quem me enrolo em banhos de maresia.
O deus ficou contente. Aninhou-se depois no colo de uma floresta e escutou:
- tudo vai bem ó deus. Somos majestosas e de cabeleira frondosa. Damos sombra e alimento. Nos nossos ramos fazem casa muitos pássaros e no nosso corpo muito bichinhos vivem.
O deus ficou contente. Sentou-se então, para descansar á beira do lago quando a girassol, atrevida, indagou o deus:
- ó deus, perdoai-me interromper o teu descanso mas diz-me lá se eu não sou a mais bela flor deste vale encantado. Muito mais bela que esta rosa espinhosa. Pois diz-me então ó deus.
O deus virou-se e olhou a girassol. Quis ouvir as razões de cada uma. O girassol falou do seu rosto, das suas sementes e do néctar dos deuses. A rosa falou do seu perfume e dos seus picos malandros. O deus pediu então um tempo para pensar e tomar uma decisão ponderada e justa. Subiu aos céus e voltou sete dias depois quando já a girassol pensava que o deus a tinha esquecido. Foram então estas as suas palavras:
- é verdade girassol: tens um farfalhudo colar de pétalas da cor do sol, sementes preciosas e um porte altivo. A rosa tem um perfume doce e espinhos menos doces mas, tem uma qualidade que tu não tens: a humildade. Por isso, vou julgar-te pela tua prepotência e vaidade desmedida capaz de humilhar os teus iguais. O teu rosto apenas terá beleza quando o sol surgir no horizonte e girará na terra como o sol gira no céu. À noite, quando o sol adormecer no horizonte o teu pescoço se dobrará e o teu rosto passará a noite a olhar a terra que te sustenta. A ti, rosa, pela tua humildade tornarei como flor das mulheres, símbolo da paixão e do amor, da humildade e da preserverança na vida pois apesar das críticas da girassol te mantiveste no teu caminho com vigor e o teus espinhos isso simbolizam. O teu perfume inebriará as mais renitentes moças, o teu botão será o símbolo das donzelas virgens e a tua flor aberta a mulher madura que é mãe.
Depois disto proferido o deus subiu aos céus e de lá olha para a girassol que se tornou escravo do sol e para a rosa que é sinal de mulher, mãe e Maria.

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