Duas torres se erguem na paisagem.
Uma de marfim.
Outra de madeira.
Uma concebe um tecto frondoso a quem lá habita servindo de doce lar recanto de risos, alegrias, prazeres, conversas, sentimentos, brincadeiras, trocas e partilhas partes de uma vivência de gente educada que procura na vida aproveitar cada momento com intensidade.
É ali que a esposa recebe a graça dos seus filhos os toma em seus braços e vai acarinhando com sorriso aqui ou raspanete além o fruto do seu amor e quer fazer crescer como flor de um jardim para que mais tarde sejam ricos seres humanos num mundo em que tanta falta deles há.
É ali que a esposa apronta a janta para que á mesa a família se reúna em deleites de paladares misturados com conversas de como correu o dia ou de como eu fiz o meu dói-dói ou como o teu namoro vai ou ainda como foi mais um dia de trabalho ou também e porque não o tempo não está nada bom para se podarem as árvores do pomar.
É ali que a esposa ajeita a flor no solitário tira o pó teimosamente lava o chão para ser espelho de um céu passa roupa ou lava a louça ou reparte esse serviço com outro alguém para que para si tenha tempo pois a isso merece como mulher de pleno direito. Seja um livro que se vai lendo em pequeno tragos ou um pôr-do-sol para ser bebido entre pestanejares ou o jardim para retocar como rosto de mulher a assomar á passerelle ou simplesmente passear com alguém ou só tricotando conversas banais ou um pouco mais sérias misturando gargalhadas sinceras. Gosta ela de se sentar numa espreguiçadeira e sentir o tempo passar ou de passear no jardim que borda o lado nascente da casa onde muitas vezes seu marido amante lhe faz a magia de aparecer como colibri e em apenas alguns minutos a faz transportar a outra galáxia e a deixa cair de manso sobre veludo com a promessa de mais logo mais á noite.
É ali que ela chega depois de desempenhar funções para um patrão e encontra naquela torre o seu refugio do bulício diário barco de salvação para os problemas do dia almofada fofinha onde descansa o paraíso pois ali tem os seus prolongamentos naqueles que mais ama. Tudo se esquece ou transforma ao passar aquela porta e é ali que se partilha…partilha tudo carinhos e esperanças sonhos e promessas tentativas e derrotas olhares e pensamentos!
É ali que o marido chega cansado mas airoso pois sabe do rosto amigo que o espera bem como do beijo que ai depositará e que mais tarde será razão para tantas outras tropelias às escuras em recantos que se falassem muito contariam das horas de prazer que já sorveram. Entra e beija a sua esposa e tudo esquece de problemas discussões ou o montão de papelada que tem para preencher e corre atrás dos filhos que fogem porque é momento de brincar um pouco e depois feliz esquece o cansaço e ajuda os filhos que tentam resolver questões e avia a postura da mesa para que rápido todos juntos passam saborear e conversar. Ao lado daquela que escolheu tem tempo de passar a mão pelo seu corpo numa carícia discreta que logo é vista de soslaio pelos petizes que riem baixinho porque acham piada ao casalinho e gostam de os ver namorar e dizem que é como na telenovela que espreitaram no outro dia. Não se esquece muitas vezes de trazer uma pequena flor que diz roubara no quintal da vizinha alegando que estavam tão bonitas e logo ali á mão de semear a tombar para a rua que era uma pena ficar ou outro alguém por lá passaria antes para ti minha amora!
É ali que se vivem intensidades quando num breve momento tudo pára numa dança e apenas os corpos se unem ao brilho de uma música que excita mais do que acalma e extasia bocas e beijos eternamente se vão selando a abraços de toque de pele sensuais despertando tudo o que de mais intimo há e se termina a noite no tapete da sala junto à lareira crepitante.
É ali que se diz sim ou não e se respeita o outro e se ouve a sua opinião e se admite não saber ou imperfeição pois é o primeiro passo para se procurar a perfeição e se discute calmamente sem alteios de voz pois a tempestade fala mais alto e bom presságio não traz no ventre e se pensa em conjunto e se espera pelo outro porque cada momento tem o seu tempo e nada se pode sobrepor a não ser os corpos dos amantes.
Na torre de marfim diz o pardal que debica na árvore plantada em família logo ali junto à janela da cozinha que há alegria amor compreensão amizade e paciência.
Na torre de madeira o tecto não é tão frondoso pois mais parece casa de ocasião onde por apenas alguns dias tudo pode ficar assim mas na verdade de uma situação temporária se passa a definitivo porque se alega que ninguém merece ou tem direito e por muito que se labute parece nunca um lar mas ingenuamente um depósito ou ponto de passagem entre dois mundos ou margens de uma só vida. Muitos sonhos se construíram muitas falas foram pronunciadas e agora uma desculpa apenas se dá para que nada se erga ou altere e sobre os seus ombros qual Atlas com mundo sobre as costas também ela acarreta as culpas que sempre morrem solitárias pois marido não encontram. Não serve essa torre de madeira a um lar muito doce mas muito amargo pouco amigo mas com muitos desencantos com poucas partilhas e muitos silêncios. A vontade é pouco de naquelas torre permanecer porque lá dentro o ar sufoca e as almas vão morrendo devagarinho de forma dilacerante e sem voz para gritar por socorro e já perdendo o viso ou a vontade de fazer desmoronar mas sempre lutando com esperança que essa é a última que morre vai erguendo cartas do baralho do castelo para aqui e acolá encontrar ancoradouros para a sua alma.
É naquela torre que a mulher guarda com mais desvelo ainda a graça que lhe foi concedida e com sorriso ou raspanete vai tentando erguer como torre de marfim para pedindo desculpa pela vivência a que foi condenada e possa sentir do seu ser emanar o amor que necessita para crescer como junco à beira do rio. Olha o presente e relembra o passado e nada foi assim como é agora e vê que nada é merecido talvez sim talvez não pois também é pecadora e tudo procura como agulha em palheiro para justificar este apontamento.
É naquela torre que a mulher apronta a janta na mais uma vez vã esperança que à mesa tudo se partilhe os risos venham descarados a conversa seja tudo menos criticas e acusações ou espetadelas e alfinetadas e que o silêncio não tenha que imperar pois é melhor que a conversa muda ou com retorno desmedido ou bem condimentado!
É naquela torre que a mulher ajeita o ramo na jarra para dar um ar mais humano e vivo tira o pó teimosamente lava o chão para tudo parecer melhor passa roupa ou lava a louça pois a isso se sente na obrigação. E o seu tempo perguntamos nós. O seu tempo tem tempo virá quando já for noite para que possa bisbilhotar num livro que se vai esmorecendo à cabeceira ou pintar um momento de vida ou sentir o calor da lua no umbral de uma janela que mal se quer abrir. Ficará por ali mesmo pois não há tempo para mais ou simplesmente vontade ou até receio de chocar com vontades e palavras do outro tu lembrando sempre aquele encanto que tudo justifica na sua existência e que agora dorme serenamente e a quem em qual narizito deposito um doce beijo. Aceita o seu tempo vontades e relampejares mas porque é assim mas por si não tem mola para lutar e ali fica passiva essa mulher que nem sempre assim se sente e só por breves segundos frente ao espelho o corpo meio disforme escondido sob trajar mais elegante a faz sentir um pouco menos feia mais confiante e forte e singelamente mulher.
É naquela torre que ela chega depois de desempenhar funções para um patrão e ali encontra o matadouro da sua alma pois terá se transformar de esquecer o riso franco a conversa leve ou sincera e ser mais um dia a culpada de todos os males da Humanidade inclusive o das mulheres terem o período e nada encontrar de diferente do dia anterior e nada mais poder partilhar a não ser a presença física. O ar que se torna enfadonho a vontade de fugir mas que a esperança continua a castrar o desespero de sentir a alma voar e o corpo não fazer o mesmo ao ver a outra a ser beijada fogosamente e o corpo ávido vai morrendo lentamente pois sem carinho já vive há muito anos e vai sobrevivendo em sonhos e fantasias e em carinhos alheios que vai pescando. O descanso que não vem o beijo que não se atreve o olhar que não se cruz o carinho que não desponta a conversa que não se desenrasca o paraíso ao qual não temos direito neste mundo a vida que passa ao lado e apenas se sobrevive e se deixa a vida para outros momentos fora daquela torre de madeira.
É àquela torre que o marido chega cansado e enfadado logo à partida mal disposto por ali assomar e nada deitar costas atrás e esquece e muito menos se lembra do ser humano que ali está à sua espera e nunca jamais se lembra do tal beijo tantas vezes reclamado e agora já nem pedido pois até isso se cansou ela de fazer a não ser quando quer dar a volta por cima mas não adianta pois a vontade masculina impera e nada se transforma. Pois não merece ou não tem mesmo direito a um carinho desprendido de interesse mas continua a desempenhar a sua função na saúde e na doença na alegria e na tristeza e pergunta ou estão as suas coisas positivas e olha o futuro e até lhe parece lobrigar a esperança mas coitada precisa de óculos pois se fosse a contar momentos de verdadeira felicidade chegariam os dedos de um mutilado pois já lá vai o tempo das vacas gordas que agora é mais o das esqueléticas pois entre segundos de alegria logo rebentam horas de desalento. Entra e não a beija e até mal responde às suas perguntas mal formuladas cansativas curiosas e aborrecidas para as quais não há santo que ature quanto mais um comum dos mortais e se senta e ali fica alheio metido nos seus afazeres ou pensamentos sem olhar em redor perceber se está tudo bem ou não se o olhar dela é mais triste e porque se o seu prolongamento que se refugia dele está desempenhando correctamente o seu trabalho e não pergunta como foi o dia nem disso tem interesse. Perscrutando o horizonte futuro esquece do presente e daqueles que ali estão e oblitera momentos de maior intimidade e o seu calendário social está preenchido com outros seres que com aqueles que só pedem atenção carinho e compreensão pois isso estão sempre dispostos a dar mas será que ainda estão? Num momento sim noutro já não pois quando vento traz notícias de vontade assim a alma se alegra e pensa que é agora mas logo quando a tempestade rebenta a alma percebe que tudo foi um embuste e mais uma vez foi enganada troçada e explorada. Onde estão os beijos calientes que só em sonho acontecem com corpos sem rosto como aquele que puxa pelo seu braço e lhe diz que a ama e tombando-a como ponte sobre o rio em seus braços a beija eternamente. Onde estão os momentos mais íntimos de confissões corporais onde a volúpia dos prazeres levará á loucura mas com pena se repetem os mesmos gestos uma duas três quatro vezes e nada se altera e nem mais nem menos e se contenta com tão pouco porque mais vale um pássaro na mão que dois a voar e sem nada ter não conseguiria viver e assim ao pouco vai somando sonhos e daí resulta uma sobrevivência pouco digna mas com sempre esperança esperançada.
É naquela torre que se calam palavras e gestos pensamentos e dores alegrias e vontades pois não há tempo para respeitos imperfeições ou indecisões esperas ou opiniões em construção e como diz o milhafre que a papa procura com seu bico de sangue na torre de madeira muita ventania sopra em dia de estio e muito gelo tomba em hora de luar.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário