Sentia-me sufocado.
Não sabia explicar aquela aflição que me toldava os sentidos e me incitava a acções pelas quais se punia por as pensar.
Tudo à minha volta era perfeito mas faltava qualquer coisa.
Ela fizera tudo para me fazer feliz, para fazer de mim o homem que sou hoje.
Foi ela que tudo empenhou para educar os nossos filhos.
Foi ela que abdicou de tanto para estar ao meu lado.
Foi dela que recebi a companhia em todos os momentos, o amor que me tornava criança, o carinho especial em qualquer situação e lugar, o olhar incitante a tanto gesto ou apenas comprometido.
Foi com ela que conversei, ouvi e falei.
Foi com ela que fiz planos, chorei e ri.
Mas afinal o que falta? O que justifica este meu mal-estar? O que me faz sentir esta dor de coração lenta e mordente?
Que sufoco.
Que calor.
Que sede.
Tenho de sair.
Saio para a rua e o sangue começa a ferver quando reparo nas mulheres com quem me cruzo. Há as que me são indiferentes. Mas outras há que despertam em mim este animal masculino que anda amansado por uma vida caseira que julgava suficiente. A sua beleza e elegância, o sorriso, o olhar sensual e provocante quando olham para mim. O movimento dos corpos femininos que em curvas sinuantes se perfilam à frente dos meus olhos faz-me querê-las. Tê-las a meu lado. Iniciar o ritual do despir com a excitação de uma criança que lambe um gelado. Jogar a roupa no chão como âncora de um navio que se quer afundar num mar de corais rosa. Tocar-lhes o corpo em todos os pormenores despertando orgasmos nesse corpo de mulher. Sentir o som da sua pele com o mesmo fascínio de uma tempestade. Despertar-lhes excitação e o prazer de serem mulheres. Beijar todos os seus recantos como o colibri à procura de mel. Sentir na sua boca o pulsar de um coração que parece sufocar de loucura. Ser capaz de amar, amar e amar continuamente como se tudo acabasse ali e nada mais existisse.
Sim. É isso que me falta.
Falta-me o prazer de sentir outras mulheres.
Falta-me o prazer de experimentar corpos novos como se fosse navegante em oceanos perdidos.
Falta-me o prazer de despertar noutras mulheres a extrema excitação.
O gemido.
O grito.
Aperto a cabeça louca entre as mãos que ambicionam percorrer outros caminhos. Fecho os olhos e apenas sinto o odor do corpo que cobiço. A minha boca sedenta imita uma flor que se abre e fecha ao sabor do sol e que espera ansiosamente pelo bico que a penetre.
Olho o céu a ali vejo as mais belas anjas que me sorriem e elevam até outros patamares da Humanidade – que diabinhas!
Refugio-me numa praia onde o areal deserto me permite respirar.
Mas o ondular da areia lembra-me o perfil de uma mulher.
Refugio-me numa praia onde o mar me dá calma.
Mas o ir e vir das ondas lembra-me o prazer de penetrar uma mulher.
Refugio-me numa praia onde o horizonte me transforma.
Mas a calmia da água salgada lembra-me os corpos suados depois do orgasmo pleno.
Refugio-me numa praia onde o sol me aquece a alma.
Mas o esplanar do sol sobre a praia lembra-me a sensação de partilha quando os corpos se tornam um só numa orgia de sensualidade.
Derrotado caio por terra e enterros os dedos na areia. É o corpo de mulher que eu toco e apalpo e mexo e remexo numa volúpia de sentires que não mais quero parar.
O sol quente, o mar vibrante, a areia sensual, o horizonte a perder de vista, tudo se conjuga no verbo prazer e eu perco os sentidos porque a vontade de descobrir toma conta da minha existência.
Sinto uma leve brisa.
Espero e sinto.
Sinto umas doces e macias mãos que me tocam no pescoço e iniciam a descida pelo meu peito e apertam com vontade os meus mamilos. Enrolam-se os atrevidos dedos nos meus pêlos e despertam-me pequenos prazeres que nunca sentira.
Uma respiração serena sopra junto ao meu ouvido que a recebe como concha do mar. Torna-se ofegante à medida que os gestos incitam emoções mais profundas, desejos de mais prazer. As mãos vão descendo mais ainda até ao centro do meu universo. Não aguento mais esta ânsia. Quero tocar e beijar quem me faz vibrar. De um só golpe arrebato a mulher que me desperta e deposito-a no leito que fervilha.
Beijo-a nos lábios. Beijo-lhe os mamilos duros de excitação. Percorro os seus caminhos. Descubro pequenos paraísos para encostar a imaginação. Ela está pronta a receber-me. Sob o calor do sol e ao som do mar entrego-me e ela entrega-se. O prazer emanado dos nossos corpos sufoca o sol quente. O mar curva-se aos nossos orgasmos. A maresia encrespa-se ao ouvir os nossos fôlegos arfantes. Os dois corpos enrolam-se num só. Livres de preceitos, esquecendo tudo o resto, sentindo apenas.
Eu o Homem, ela a Mulher.
Percorro agora as avenidas longas à procura de outro mais.
Quero vibrar.
Quero sentir-me vivo.
Quero sentir-me de novo um jovem amante.
Preciso de sentir a excitação, o pulsar, a volúpia dos sentidos e das emoções.
Parto à aventura.
Entrego-me completamente.
Partilho prazeres e sensações.
Reinvento a paixão
Redescubro o amor.
Aporto em vários cais e atraco o meu barco.
Conheço paisagens diferentes.
Por umas me apaixono. Por outras me entrego apenas.
Mas por uma montanha me perdi.
Olho para trás e vejo…
Aquilo que esqueci.
Aquilo que deixei de respeitar.
Aquilo que deixei de amar.
O tempo escoa por entre os dedos.
É tempo de levantar âncora.
Em todos os portos se levantam monstrengos e as correntes tornam-me um errante.
Onde estão as minhas amarras?
Onde está o meu porto seguro?
Onde posso descansar o meu corpo?
Onde posso sossegar este coração que tanto se inquietou?
O tempo escoa por entre os dedos.
Será que ainda vou a tempo de recuperar tudo o que esqueci?
Entro em casa.
Ela está ali. Sorri.
Ela procura-me. Eu quero fugir.
Ela insiste. Eu acredito que ela percebeu a minha fuga.
Ela toca-me.
Eu desperto. Lentamente. De uma forma mais doce. Sem tempestades. Sem vulcões.
Ela rompe a minha capa e deleita-se.
Sim. Sobre um pano de veludo sinto-me amado, seguro, querido. Não tenho mais medo do tempo. Entrego-me à doce Terra e sinto toda a sua paz e calmaria.
Olho para trás.
O que ficou?
Apenas vãs ilusões. Momentos vibrantes mas passageiros. Sensações imensas mas superficiais. Senti-me o maior sim, mas não seguro. Senti-me um homem sim, mas não um Homem.
Quero esquecer tudo. Tenho de esquecer tudo.
Pedir perdão por tudo.
Perco os sentidos.
Sinto-me correr com a serenidade das emoções.
Agora… sou um rio que galga a mais bela das colinas verdejantes.
E sinto-me feliz por isso…
Nem que a alma de aventureiro esteja dilacerada!
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
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