quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Se eu fosse...

O escritor sentado na sua cadeira de cotovelos bem assentes na mesa amiga de tantos anos olha não sabe se furioso se desesperado para a folha de papel que virgem ainda espera ser desvirtuada por tão singela pena de literato. Ali jaz o escritor sem uma gota de inspiração ou tema de debate entre ele a caneta e a folha branca alva como a nuvem que se tolda em formas e incita à imaginação de quem para isso tem vagar. O escritor aguarda que uma fonte nasça que uma flor desabroche que a semente irrompa que o vento sopre que a mulher pára que o sol desperte que o fogo ilumine… raios! Que alguma ideia surja em seu espírito de escritor. A noite ergue formas definidas nas paredes dos imóveis que se perfilam nas ruas bolorentas e o escritor está perto do desespero. Venderia ele a alma ao Diabo se tal lhe desse o instrumento com o qual a folha de papel branco haveria que esventrar.
O escritor sentado na sua cadeira escrava de uma existência olhou então para a sua pena que pousada na sua mão permanecia quieta como a dormir o mais justo dos sonos como guerreiro que da guerra vem e repousa no seu leito caseiro que por isso tem melhor sabor. E pensou o escritor para com ele:
“O artista que rasga a tela com gestos desabridos e inebriantes sente na sua mão o pincel e pensa para com ele que se não o tivesse ali nada poderia pintar e a arte tardaria como batel que por causa da corrente contrária jamais aporta em seguro porto.
O camponês que rasga a terra com gestos quotidianos e curvados sente nas suas mãos a enxada e pensa para com ele que se não a tivesse ali nada poderia fazer brotar daquele ventre e o alimento tardaria como o sol que tarda em nascer porque a lua quer ter seu reinado por um pouco de mais tempo.
O pescador que com gestos largos e messiânicos sente nas suas mãos a rede que lança ao mar e pensa para com ele que se a não tivesse ali peixe algum poderia pescar e se sentiria como o pescador de homens que escolheu as vitimas erradas pois só da sua morte nasceu a fé provando assim o lado mau e assassino da espécie humana.
O bispo que reza em atitude de súplica ou de perdão sente nas suas mãos a cruz de madeira encarquilhada e pensa para com ele que se a não tivesse ali seria uma homem pecador por pensamentos palavras actos e omissões mas que a ter em seu poder como parte de si o torna superior ao comum dos mortais.
O guerreiro que valentemente se perde em batalhas sente nas suas mãos a espada de ferro gélida e pensa para com ele que se não a tivesse ali seria um cobarde enfiado no covil da impavidez enquanto os outros o injuriam e denunciam como traidor da Pátria.
O escritor depois de tudo isto pensar permanece impassível para com a folha de papel e sente ainda mais desespero. Se ele fosse um artista teria o que pintar nem que cópia fosse, se fosse um camponês uma terra teria para cultivar nem que fruto não recebesse, se fosse um pescador um barco seria seu companheiro na faina ou na desgraça, se um bispo fosse teria muitas almas para confessar mesmo que mentiras se inventassem, se um guerreiro fosse teria uma espada para matar ou se matar.
O tempo passa e na rua escura ouvem-se os uivos dos bêbados que aos tropeções descem até à beira-rio e ali se perdem em vómitos ou com outras companhias que aproveitarão para roubar e não para amparar. Mas o escritor alheio a tudo isso porque só vive para o seu desespero olha para a sua caneta e implora-lhe que escreva. Percebe então o que a caneta lhe diz:
“ó meu querido companheiro nós um só unidos pela imaginação e inspiração e pela obediência servil já que tu pensas e eu escrevo. Pois que queres tu que eu escreva se nesta noite escura e húmida tu nada tens para filosofar ou discutir? Se eu fosse um pincel mergulharia nas tintas do arco-íris e depois se banharia numa íntima tela branca. Se eu fosse uma enxada pronta estaria para abrir rasgos na terra como golpe primordial no ventre capaz de alimentar o inteiro universo. Se eu fosse uma rede os peixes apanharia e poucos deixaria escapar pois o mundo é feito de crentes. Se eu fosse uma cruz no fogo arderia para não ter de sustentar o peso eterno de um pecado. Se eu fosse uma espada cortaria esta folha em dois para não teres de escrever tanto.” Caramba que bronco estás hoje! Fala do tempo que se escoa das flores que são beijadas dos pássaros que trazem novas do mar que faz amor com as dunas do vento que leva os sonhos do amor que tarda em chegar da moça perdida de amores que se perdeu na rua do rio que nunca é o mesmo…”
O escritor pensou então em escrever um romance: há muito tempo uma flor beijada por um colibri recebeu a nova por um pássaro que num mar distante o vento cobriu de amor um rio…
O escritor pensou então em escrever um romance: uma história de amor entre um soldado fininho de ponta aparada que se apaixonava por linda donzela branca como a neve e escanzelada como uma vara de vira tripas…
Logo a caneta e a folha se zangaram pois não seriam expostos os seus sentimentos de uma forma tão aviltante. O escritor irritado decidiu então escrever sobre aquilo que ele não era e aquilo que ele não fazia. Imaginou ser um artista um camponês um pescador bispo ou guerreiro e quis vestir estas peles para que daqui nascesse um tratado sobre vivências ou sentimentos. Mas a caneta arranhou o papel e feriu-o. O escritor sentiu-se o traidor e esqueceu a sua missão.
Nessa manha, quando a criada lá de cima veio arrumar o quarto encontrou uma folha de papel com manchas de tinta como pintura abstracta esventrada como a terra por algumas palavras sem nexo como se de uma rede esburacada se tratasse aquele puzzle de letras e poças de tinta. Ao lado tombada uma caneta qual enxada que carrega uma cruz do destino e deseja a morte por uma espada pois só o silêncio do mundo lhe dará a paz eterna. Sob a mesa amiga jazia em definitivo o escritor que por não ter o que escrever se preferiu deixar morrer para que outro que viesse tivesse tema de charruar e sobre ele e o seu desespero pudesse escrever.
Paz à alma do escritor sem tema de conversa. Paz à alma da folha de papel que foi violada. Paz à alma da caneta que morreu tentando dar corpo ao pensamento do escritor.

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