As pedras do passeio do parque eram todas iguais. Cinzentas. Quadradas. Bordadas a terra e pequenos filamentos verdes oscilantes ao vento e calcadas pelos passos das gentes.
O passo arrastava-se lento perdido sem norte com esperança ou com tanta falta dela que tudo à volta parecia dúbio e irreal.
As mãos dela nos bolsos estavam geladas não pela neblina que pairava sobre o jardim triste amarfanhado e solitário mas porque desesperadamente confessavam a sua falta de humanidade por não saberem já mais o que era serem tocadas e acarinhadas com prazer de um homem.
Escondiam-se envergonhadas engelhadas pela vida amarga e negativa de afectos a que foram votadas desde cedo logo elas que tanto apreciavam enrolar-se entre os dedos masculinos de alguém e se perderem em promessas de muito mais.
O rosto tombado que pendia das costas doridas olhava sem olhar o passeio do parque onde me queria perder e ao mesmo tempo achar o caminho a seguir pois tudo chegara ao ponto de ruptura do desalento total e tudo parecia não mais ter sentido e o que tinha sentido deixara de ser importante e deixara de ser importante tudo o que não tinha significado ou magia ou calor para dar e garantir o seu lugar ao meu lado.
Foi então que o vi tão sozinho tal como eu tão abandonado tal como eu tão vazio tal como eu tão carente de calor como eu.
Ali estava ele e foi ali que permaneci.
Sentada.
No banco do jardim.
Que estava cinzento por causa do nevoeiro que teimava em descer sobre as árvores em fila e toldava o além para que mais ninguém sonhasse para que não se aspirasse ao futuro para que não se desejasse ir mais para a frente e morresse ali mesmo vítima de uma dor moente e permanente e profunda quão chaga de um lança que trespassa o corpo alegando que é bom sentir dor pois é sinal de que estamos vivos.
Estamos vivos se não sentirmos senão sentirmos a lança a perfurar o nosso coração a nossa barriga o nosso ventre o nosso sexo se não sentirmos apenas a dor estúpida dor do desamor?
Encolho-me no banco cinzento do jardim desbotado pelos rabos que ali se roçaram ou pelo nevoeiro que vai passando e deixando-se lamber nas tábuas esqueléticas de um banco de jardim que apenas quer receber o quentinho do sol e ver o seu nascer e o seu deitar ou apenas sentir o vento assobiar por entre as tábuas finas e cinzentas.
Onde está o amor pergunto eu porque raio ele fugiu de mim ou não soube eu agarrá-lo ou mesmo perceber que me tinha tocado à porta com aquela sineta comprada numa feira de velharias e que bem me custou levar para casa de tão pesada que era e que afinal não me acordou quando ele bateu à porta e me disse eu amo-te quero-te e desejo-te e fica comigo esta noite e todas as outras dos 365 dias do ano e mais um para completar a ementa!
Sentada no banco levanto o rosto para ver ao longe o nevoeiro.
Tinha frio.
Queria ser aquecida e amada e sentida e sentir ser mulher e respeitada com qualidades e defeitos e não apenas um verbo-de-encher que se cospe quando sabe mal ou se esconde numa pastilha que se moí e deita fora quando já não serve para mais nada a não ser tapar o cano rebentado da canalização lá da cozinha.
Como estava frio e o tom cinza não ajudava nada e ainda toldava mais os sentidos e as vontades e aumentava o desatino e a vontade de tudo partir e de partir e esquecer que um dia sonhei em ser feliz e apenas consegui ser infeliz ou porque sonhei alto demais ou porque era a minha sina ou simplesmente porque assim tinha que ser ou porque eu não soubera adicionar os ingredientes necessários ou porque as forças se uniram para me tramar.
Encostei as minhas doridas costas ao encosto do banco e senti-me reconfortada mas também o gelo do banco frio afilou-se nas minhas costelas ali ficou a troçar dos meus arrepios e da minha vontade de procurar uma fogueira ou da vã esperança que um raio de sol aparecesse só para dizer olá e por segundo me aquecesse.
Não que raiva o momento de magia não surgia mas mal sabia eu que afinal ele viria e já lá vinha agora pisando a erva orvalhada espetada na terra castanha e gretada dos gelos matinais que gostavam de se aninhar no regaço da terra e deixavam depois a sua ferida aberta exposta como olhares para o mundo cá de cima.
Ele chegava devagarinho e cobriu os meus ombros como uma quente manta e os seus dedos longos e fortes fizeram-me sentir dele como nunca me sentira e percorreram os meus braços gelados e abriram as minhas mãos para depois se apertar nelas e desta forma dizer estou aqui e vou ficar aqui ao teu lado e amo-te.
Os corpos ficaram mais juntos e ele obrigou-me a voltar para ele e olhar nos seus olhos para ter a certeza do amor que me dizia votar e eu queria perder-me loucamente no seu corpo mas tive ainda mais vontade de sentir a sua boca na minha e esperei pacientemente que a boca dele acalenta-se o meu pescoço e sentisse o seu bafo quente e o coração disparou como há uma eternidade não o fazia.
Afinal não estava de todo morto mas apenas completamente amarfanhado como folha de papel amarrotada espezinhada enxovalhada e deitada para um caixote do lixo que jamais se despeja e ali permanece para ser lida quando for preciso.
A memória das palavras mal ditas ou malditas escoava agora por entre os beijos doces e suaves e queria esquecer todos os actos de perjúrio contra o amor o carinho o respeito e rebobinei rapidamente o filme para depois o effacer do meu cérebro que adormece e acorda com as mesmas imagens e pensa numa solução e termina sempre no desejo da morte do carcereiro.
Esqueço as vontades mal cumpridas os abraços que se deram como recompensa sem vontade e que depois se esqueceram e se evitaram o toque que não toca a pele que não se acaricia e o desejo morre assim e a vontade também e o rosto que se vira quando se quer dar um beijo e os lábios que permanecem cerrados como se de um morte se tratasse e cremos pois então que até o gelo se derreteria mas não ali naquele corpo que mais pensa no seu prazer que na partilha. Um corpo que mais se lembra de odiar do que em amar ou respeitar… esqueço… vou esquecendo porque os meus olhos vêm á sua frente uma mistura de essências com muitas cores e perfumes e para o guardar na minha alma fecho as janelas do meu corpo e deleito-me apenas com os seus lábios que tocam nos meus a língua que de devagar vai tentando penetrar na boca ávida de beijo e se enfia teimosa quente e flores raras que pairam na imensidão da minha imaginação brotam dos meus sentidos e borboletam pelos ares do jardim cinzento e sozinho.
Já não aguento mais e que venha a perdição a completa loucura o eterno prazer o desejo a paixão o ardor a vontade de ver jorrar por cima do meu corpo todos os perfumes do mundo que trazem amor na sua fórmula e os dois corpos rolarão no campo doce do feno em finais de Junho quando o sol mais quentinho ficará.
E as mãos fortes cerraram-me contra ele e gritam-se promessas de fazer amor uma e mais uma e mais uma e mais uma eternidade de noites de puro prazer misturado com a chama do pecado e gomos de amor que se vão sugando numa vontade partilhada de recuperar o tempo perdido.
E as línguas cruzam-se e as mãos que estreitam distâncias e as unhas que revelam o crer ainda mais porque agora não há voltar atrás e o bilhete era de um só ida e definitivamente se quer dar uma hipótese ao amor de outrora que se foi afogando em escondidas.
Atinjo a nossa felicidade que submerge os pés das árvores que em fila ao lado umas das outras cantam palavras de sorry my love ou de i want to hold you e as lágrimas agora de felicidade caiem sobre um rosto quente pelo prazer de se sentir amado beijado querido.
E quando o mundo parecia ir girar por todo o universo o vento soprou mais forte e abanou-me o meu ser e eu infelizmente percebi que a caminha não acabava ali e as mãos a boca o amor vinham do nevoeiro cerrado tombado sobre mim que de tão carente me apropriada de toda e qualquer força da Natureza para sentir uma pontada de carinho que fosse e afinal nada mais era que pura ilusão e em vez de calor recebera a humidade que agora se entranhava na minha carne e me enregelava mais ainda avisando que não merecia ser feliz e amada mas apenas ir sofrendo lentamente pelo caminho que se calcava devagar em pedras cinzentos.
E ali fiquei sentada no banco a admirar as árvores em fila que choravam despidas também de carinho.
O passo arrastava-se lento perdido sem norte com esperança ou com tanta falta dela que tudo à volta parecia dúbio e irreal.
As mãos dela nos bolsos estavam geladas não pela neblina que pairava sobre o jardim triste amarfanhado e solitário mas porque desesperadamente confessavam a sua falta de humanidade por não saberem já mais o que era serem tocadas e acarinhadas com prazer de um homem.
Escondiam-se envergonhadas engelhadas pela vida amarga e negativa de afectos a que foram votadas desde cedo logo elas que tanto apreciavam enrolar-se entre os dedos masculinos de alguém e se perderem em promessas de muito mais.
O rosto tombado que pendia das costas doridas olhava sem olhar o passeio do parque onde me queria perder e ao mesmo tempo achar o caminho a seguir pois tudo chegara ao ponto de ruptura do desalento total e tudo parecia não mais ter sentido e o que tinha sentido deixara de ser importante e deixara de ser importante tudo o que não tinha significado ou magia ou calor para dar e garantir o seu lugar ao meu lado.
Foi então que o vi tão sozinho tal como eu tão abandonado tal como eu tão vazio tal como eu tão carente de calor como eu.
Ali estava ele e foi ali que permaneci.
Sentada.
No banco do jardim.
Que estava cinzento por causa do nevoeiro que teimava em descer sobre as árvores em fila e toldava o além para que mais ninguém sonhasse para que não se aspirasse ao futuro para que não se desejasse ir mais para a frente e morresse ali mesmo vítima de uma dor moente e permanente e profunda quão chaga de um lança que trespassa o corpo alegando que é bom sentir dor pois é sinal de que estamos vivos.
Estamos vivos se não sentirmos senão sentirmos a lança a perfurar o nosso coração a nossa barriga o nosso ventre o nosso sexo se não sentirmos apenas a dor estúpida dor do desamor?
Encolho-me no banco cinzento do jardim desbotado pelos rabos que ali se roçaram ou pelo nevoeiro que vai passando e deixando-se lamber nas tábuas esqueléticas de um banco de jardim que apenas quer receber o quentinho do sol e ver o seu nascer e o seu deitar ou apenas sentir o vento assobiar por entre as tábuas finas e cinzentas.
Onde está o amor pergunto eu porque raio ele fugiu de mim ou não soube eu agarrá-lo ou mesmo perceber que me tinha tocado à porta com aquela sineta comprada numa feira de velharias e que bem me custou levar para casa de tão pesada que era e que afinal não me acordou quando ele bateu à porta e me disse eu amo-te quero-te e desejo-te e fica comigo esta noite e todas as outras dos 365 dias do ano e mais um para completar a ementa!
Sentada no banco levanto o rosto para ver ao longe o nevoeiro.
Tinha frio.
Queria ser aquecida e amada e sentida e sentir ser mulher e respeitada com qualidades e defeitos e não apenas um verbo-de-encher que se cospe quando sabe mal ou se esconde numa pastilha que se moí e deita fora quando já não serve para mais nada a não ser tapar o cano rebentado da canalização lá da cozinha.
Como estava frio e o tom cinza não ajudava nada e ainda toldava mais os sentidos e as vontades e aumentava o desatino e a vontade de tudo partir e de partir e esquecer que um dia sonhei em ser feliz e apenas consegui ser infeliz ou porque sonhei alto demais ou porque era a minha sina ou simplesmente porque assim tinha que ser ou porque eu não soubera adicionar os ingredientes necessários ou porque as forças se uniram para me tramar.
Encostei as minhas doridas costas ao encosto do banco e senti-me reconfortada mas também o gelo do banco frio afilou-se nas minhas costelas ali ficou a troçar dos meus arrepios e da minha vontade de procurar uma fogueira ou da vã esperança que um raio de sol aparecesse só para dizer olá e por segundo me aquecesse.
Não que raiva o momento de magia não surgia mas mal sabia eu que afinal ele viria e já lá vinha agora pisando a erva orvalhada espetada na terra castanha e gretada dos gelos matinais que gostavam de se aninhar no regaço da terra e deixavam depois a sua ferida aberta exposta como olhares para o mundo cá de cima.
Ele chegava devagarinho e cobriu os meus ombros como uma quente manta e os seus dedos longos e fortes fizeram-me sentir dele como nunca me sentira e percorreram os meus braços gelados e abriram as minhas mãos para depois se apertar nelas e desta forma dizer estou aqui e vou ficar aqui ao teu lado e amo-te.
Os corpos ficaram mais juntos e ele obrigou-me a voltar para ele e olhar nos seus olhos para ter a certeza do amor que me dizia votar e eu queria perder-me loucamente no seu corpo mas tive ainda mais vontade de sentir a sua boca na minha e esperei pacientemente que a boca dele acalenta-se o meu pescoço e sentisse o seu bafo quente e o coração disparou como há uma eternidade não o fazia.
Afinal não estava de todo morto mas apenas completamente amarfanhado como folha de papel amarrotada espezinhada enxovalhada e deitada para um caixote do lixo que jamais se despeja e ali permanece para ser lida quando for preciso.
A memória das palavras mal ditas ou malditas escoava agora por entre os beijos doces e suaves e queria esquecer todos os actos de perjúrio contra o amor o carinho o respeito e rebobinei rapidamente o filme para depois o effacer do meu cérebro que adormece e acorda com as mesmas imagens e pensa numa solução e termina sempre no desejo da morte do carcereiro.
Esqueço as vontades mal cumpridas os abraços que se deram como recompensa sem vontade e que depois se esqueceram e se evitaram o toque que não toca a pele que não se acaricia e o desejo morre assim e a vontade também e o rosto que se vira quando se quer dar um beijo e os lábios que permanecem cerrados como se de um morte se tratasse e cremos pois então que até o gelo se derreteria mas não ali naquele corpo que mais pensa no seu prazer que na partilha. Um corpo que mais se lembra de odiar do que em amar ou respeitar… esqueço… vou esquecendo porque os meus olhos vêm á sua frente uma mistura de essências com muitas cores e perfumes e para o guardar na minha alma fecho as janelas do meu corpo e deleito-me apenas com os seus lábios que tocam nos meus a língua que de devagar vai tentando penetrar na boca ávida de beijo e se enfia teimosa quente e flores raras que pairam na imensidão da minha imaginação brotam dos meus sentidos e borboletam pelos ares do jardim cinzento e sozinho.
Já não aguento mais e que venha a perdição a completa loucura o eterno prazer o desejo a paixão o ardor a vontade de ver jorrar por cima do meu corpo todos os perfumes do mundo que trazem amor na sua fórmula e os dois corpos rolarão no campo doce do feno em finais de Junho quando o sol mais quentinho ficará.
E as mãos fortes cerraram-me contra ele e gritam-se promessas de fazer amor uma e mais uma e mais uma e mais uma eternidade de noites de puro prazer misturado com a chama do pecado e gomos de amor que se vão sugando numa vontade partilhada de recuperar o tempo perdido.
E as línguas cruzam-se e as mãos que estreitam distâncias e as unhas que revelam o crer ainda mais porque agora não há voltar atrás e o bilhete era de um só ida e definitivamente se quer dar uma hipótese ao amor de outrora que se foi afogando em escondidas.
Atinjo a nossa felicidade que submerge os pés das árvores que em fila ao lado umas das outras cantam palavras de sorry my love ou de i want to hold you e as lágrimas agora de felicidade caiem sobre um rosto quente pelo prazer de se sentir amado beijado querido.
E quando o mundo parecia ir girar por todo o universo o vento soprou mais forte e abanou-me o meu ser e eu infelizmente percebi que a caminha não acabava ali e as mãos a boca o amor vinham do nevoeiro cerrado tombado sobre mim que de tão carente me apropriada de toda e qualquer força da Natureza para sentir uma pontada de carinho que fosse e afinal nada mais era que pura ilusão e em vez de calor recebera a humidade que agora se entranhava na minha carne e me enregelava mais ainda avisando que não merecia ser feliz e amada mas apenas ir sofrendo lentamente pelo caminho que se calcava devagar em pedras cinzentos.
E ali fiquei sentada no banco a admirar as árvores em fila que choravam despidas também de carinho.
- Todos os dias Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um sim ou um não pode mudar toda a nossa existência.- Teresa
ResponderEliminarDeus, ó Deus...
ResponderEliminarComo andas esquecido da Humanidade de que tanto queres ter sido o Criador!!!
O Não e o Sim é o Homem que tem a capacidade de o emitir... porque assim conseguiu aprender e crescer e tornar-se Homem!
Na vida de cada Homem entre o sim e o não
ResponderEliminartambém pode haver o que chama hesitação,
por mais breves que sejam esses instantes de duvida; a racionalidade,Deus,a ousadia ou bien la chance fazem o "destino".
A infelicidade existe ou é subjectiva? Nem sei.
Mas sei que gostei de lêr este pedaço.
@+